Estratégias para uma parentalidade consciente e eficaz.
Criar filhos nem sempre é fácil. Reconhecermos e aceitarmos as nossas emoções é o primeiro passo para ajudarmos os nossos filhos a lidar com as deles.
Se estamos a ficar zangados com uma birra, podemos dizer: «Já vi que estás irritado, e eu também estou a ficar. Vou afastar-me para nos acalmarmos, mas quando quiseres conversar, ou dar um abraço, diz-me.»
Podemos sentir vergonha se a nossa filha não se «porta bem» (as crianças pequenas não têm maturidade emocional para se comportar como os adultos). Mas se reconhecermos que é a nossa vergonha que nos impele a bater, conseguimos decidir não o fazer.
Se estamos com pressa de manhã, podemos antecipar o que vamos esperar das crianças: «Daqui a 5 minutos temos de sair.» Em vez de gritarmos ordens que têm de ser executadas naquele preciso momento (quem é que gosta disso?). E podemos tirar um segundo para pensar que talvez eles tenham razão, e que o mundo seria melhor com um ritmo mais descontraído. Para voltarmos ao momento presente e continuarmos, agora com mais calma.
Em seguida daremos outros exemplos concretos de como lidar em situações desafiantes do dia a dia com as crianças.
Crianças pequenas

1 – Distraia-a
Numa situação desafiante, por vezes basta distrair a criança, ou até mudá-la calmamente de lugar, para evitar a sua agitação.
Pode distraí-la no momento em que a situação se está a dar ou pode distraí-la antecipadamente antes que a recusa de fazer algo e a consequente birra tenham lugar.
Exemplo: Se a criança vai fazer uma birra para sair do banho porque gosta de ficar a brincar na água, distraia-a com a perspetiva de algo que ela goste e que esteja noutra divisão, como um brinquedo ou um livro.
2 – Nomeie as emoções da criança
Ao nomear as emoções da criança está a dizer-lhe que a compreende e ela vai sentir-se grata e mais calma. Exemplo: «Vejo que estás zangado. Muito zangado!», ou «Estás mesmo triste, não é? Tão triste…». E termine afirmando que está disponível para a ajudar: «Quero que te sintas melhor. Vou ajudar-te para que te sintas melhor.»
3 – Adapte a circunstância à idade da criança
Em todas as idades as crianças têm necessidades diferentes. Se a criança for muito pequena, não irá conseguir ficar quieta e calada durante muito tempo no mesmo lugar sem ficar agitada. Se não pretende essa agitação ou não a souber gerir, reduza o tempo da sua estadia. Se não o pode fazer, peça a alguém para ficar com a criança enquanto faz o que precisa.
4 – Antecipe situações desafiantes
Quase todas as crianças (e até os adultos) descompensam com duas situações muito específicas: fome e cansaço. Tente manter os horários e rotinas da criança a nível da alimentação e do sono.
Se não tem quem fique com a criança e sabe que vai estar na rua durante a hora de uma refeição, leve comida e água consigo. Se sabe que ela se aborrecerá no restaurante e tem planos para almoçar fora, leve um livro e/ou um brinquedo.
5 – Em caso de birra
Na rua
Se a criança estiver a fazer uma birra grande, daquelas em que se atira para o chão aos gritos, retire-a com cuidado do local onde se encontra, sem a magoar, e leve-a para um sítio mais calmo. Ao retirá-la do local onde se deu o conflito, já lhe está a dar oportunidade para se acalmar.
Se a criança se recusa a ser movida, dê-lhe espaço e tempo antes de voltar a tentar, mesmo que ela esteja a gritar. Ignore os olhares das outras pessoas. A maior parte das vezes elas já passaram pelo mesmo e estão “consigo”; não precisa de sentir vergonha. A criança logo se acalmará.
Em casa
Por vezes é preciso dar espaço à criança e aos próprios pais para se acalmarem. Saia da divisão em que se encontra e regresse passado um pouco. Pergunte à criança se já se acalmou e diga-lhe que está ali para quando ela quiser um abraço e conversar. Garanta sempre que a criança não se irá magoar se ficar sozinha. Pode remover do seu alcance objetos que ela possa atirar: ao mudar o contexto, poderá mudar ou refrear os impulsos da criança. Não a deixe só demasiado tempo: isto não é um castigo, é uma oportunidade para ambos organizarem as emoções.
No final, quando a criança estiver calma, é o momento para conversarem tranquilamente sobre o que aconteceu e combinarem o que podem fazer para da próxima vez não correr tão mal.
6 – E se o meu filho me tentar bater?
Se as emoções da criança estiverem descontroladas, mantenha os braços e pernas dela afastados de si, sem a magoar, de modo a que não possa ser também magoado. Se preciso for, abrace-a, até ela se acalmar. Quando a criança estiver calma, então poderá conversar com ela com tranquilidade e explicar-lhe o que correu mal, e como podem, de futuro, fazer para que corra bem.
7 – Use consequências em vez de palmadas
Estabelecer limites é fundamental na educação de uma criança. Pode estabelecer limites firmes e criar consequências para quando eles são ultrapassados.
Exemplos:
Se a criança se recusa a levar o impermeável para a rua e está a chover, a consequência natural vai ser que assim irá molhar-se. Mas podemos ser cuidadores respeitosos ao invés de quase punitivos («Vês? Eu bem te avisei! Agora, ficas molhado e acabou-se!») e na primeira ocorrência levar um casaco connosco. Este vai ser um bom momento de aprendizagem para a criança, ao mesmo tempo que a respeita e nutre a relação entre ambos. «Vês? Realmente está a chover. Ainda bem que temos aqui o impermeável. Da próxima vez trazemo-lo logo, sem discussão, sim?»).
Se a criança bateu noutra, convém que seja privada de continuar a participar naquela brincadeira até se acalmar, pois a segurança de todas as crianças tem de ser prioridade; isto deverá ser-lhe explicado, adequando o discurso à idade.
É sempre importante que a consequência esteja logicamente relacionada com o ato que não se pretende repetir, ou será meramente punitiva.
Exemplo: não faria sentido dizer a uma criança que bateu no colega unicamente porque ainda está a aprender a gerir as emoções que por causa disso não irá ao parque infantil. Isso seria meramente punitivo e para a criança, naturalmente, sentido como injusto e ilógico.
A consistência é também muito importante. Evite dizer que vai fazer uma coisa e depois fazer outra.
8 – Dê reforço positivo
O uso de consequências apenas funcionará se o combinar com estratégias positivas de encorajamento de bom comportamento, o chamado reforço positivo. Exemplo: se a criança agora está a partilhar um brinquedo ou uma brincadeira com o amigo/irmão/primo em vez de lhe bater como estava a fazer anteriormente, deve falar-lhe sobre isso de forma alegre e positiva!
9 – Crie laços afetivos
Brinque com legos, jogue à bola, às escondidas, à apanhada, às bonecas, vejam um filme na TV ou no cinema juntos ou simplesmente converse com a criança sobre como foi o vosso dia. Leia-lhe uma história à noite, antes de dormir. Ouça-a, realmente, quando ela fala consigo e respeite as suas opiniões. Ao criar laços com a criança vai aproximá-la de si e conseguir, naturalmente, mais proximidade e respeito também.
Crianças mais crescidas
1 – Crie regras de família simples e claras
Ao criar regras familiares claras (hora de deitar, lavar os dentes, tempo de ecrã, etc.) , permite à criança saber o que espera dela e que aja conforme essas regras. Pode afixar essas regras no frigorífico ou noutro local. Se a criança se esquecer das regras ou tentar contorná-las, relembre-a gentil, mas assertivamente, deixando claro que é o adulto quem define as regras em casa, e não a criança.
2 – Reconheça os sentimentos da criança
Ao reconhecer os sentimentos da criança está a dizer-lhe que a compreende e ela vai sentir-se grata e mais confiante. Nunca a ridicularize. Todas as perguntas e interrogações são válidas, em qualquer idade. Se a criança diz que se sente envergonhada, não a humilhe nem goze com ela: mude antes o contexto para que não se sinta mais assim. Se ela se sente triste, diga-lhe que lamenta que ela se sinta assim e que está disponível para quando ela quiser um abraço ou conversar. Se ela se sente frustrada ou zangada porque teve de interromper algo que estava a fazer, combinem uma organização diferente para o dia seguinte para que isso não aconteça.
3 – E quando tenho de pedir cinco vezes a mesma coisa?
Se está a fazer um pedido direto ao seu filho e ele não o ouve nem interrompe o que está a fazer, experimente aproximar-se dele, pedir-lhe que interrompa o que está a fazer e estabeleça contacto visual. Quando ele lhe olhar nos olhos, repita com calma e firmeza o pedido. Pode tocar-lhe gentilmente no braço enquanto o faz, como que a “trazê-lo para si” para que consiga focar-se melhor.
4 – Converse com a criança, explique-lhe os benefícios e os porquês
Ao explicar-lhe o porquê da necessidade de cumprir regras como ir dormir a certa hora (para não se sentir cansado no dia seguinte e crescer com saúde), de lavar os dentes (para não criar cáries), que têm de se vestir naquele momento (para não chegarem atrasados a casa da avó), etc., o seu filho compreenderá que as ordens ou regras têm um objetivo e aceitá-las-á melhor. O diálogo em combinação com o contacto visual e o toque leve no braço, tende a funcionar.
5 – Use consequências em vez de palmadas
Estabelecer limites é fundamental na educação de uma criança. Pode estabelecer limites firmes e criar consequências ou perda de privilégios para quando eles são ultrapassados ou quando as regras são quebradas.
Exemplo: se a criança fica acordada até tarde, no dia seguinte irá cansada para a escola. Esta é uma consequência natural. Mas por vezes as ações da criança interferem com as necessidades da família, e se a regra for clara, é natural que se for ultrapassada haja uma consequência. Exemplo: se a criança de manhã ficou a brincar em vez de se vestir, isso fez com que não só se atrasasse a ir para a escola como os pais chegassem atrasados ao emprego.
Seja claro sobre de que forma ela pode recuperar os privilégios perdidos. Exemplo: amanhã podes brincar à vontade, mas apenas depois de te vestires, para não chegares atrasado à escola nem os pais ao emprego.
O objetivo não é punir a criança nem torná-la submissa, mas ajudá-la a fazer melhores escolhas no futuro. Quando ela for adulta não vai poder fazer apenas o que quer e todas as suas ações terão consequências.
Também nesta faixa etária, é importante que as consequências estejam logicamente relacionadas com o que não se pretende repetir, ou serão meramente punitivas.
6 – Dê reforço positivo
O uso de consequências apenas funcionará se o combinar com estratégias positivas de encorajamento de bom comportamento, o chamado reforço positivo. Exemplo: se a criança arrumou os brinquedos sem que lho pedisse, ou se partilhou algo com o irmão/irmã, valorize esses gestos!
7 – Fortaleça os laços afetivos
Cantem, dancem, deem passeios juntos, vão ao cinema ou vejam em família um filme ou uma série de TV adequada à idade da criança. Joguem ao galo, ao jogo da glória ou às cartas. Ouça a criança quando ela fala consigo, mas ouça-a realmente, e respeite as suas opiniões e sentimentos. Ao reforçar os laços afetivos com a criança vai aproximá-la de si e conseguir, naturalmente, mais proximidade e respeito também.
DICAS RÁPIDAS EM JEITO DE RESUMO:
Em caso de conflito ou desregulação, em vez de perder a cabeça, gritar ou dar uma palmada, experimente o seguinte:
1. Regule-se
- Afaste-se da zona de conflito (se for seguro para a criança)
- Respire
- Conte até dez
- Passe as mãos ou a cara por água
- Sacuda os braços
2. Ajude a criança a regular-se
- Esteja presente para a criança, seja perto, ou um pouco mais afastado
- Por vezes a criança precisa de tempo sozinha para se regular
- Por vezes precisa de palavras simples que lhe digam que não a está a julgar e que a aceita, como por exemplo: «Estou aqui.»
- Por vezes pode precisar de silêncio
3. Reconecte com a criança
Mostre disponibilidade:
«Estou aqui, quando quiseres um abraço.»
«Se quiseres falar, estou aqui.»
Acolha e valide as suas emoções:
«Tens o direito a estar frustrado.»
«Percebo que estejas triste.»
Ofereça presença: com um abraço, com colo
4. Converse com a criança e cheguem a conclusões
- Ouça o ponto de vista da criança
- Exponha o seu ponto de vista
- Falem sobre o que aconteceu que possa ter sido incorreto, de uma parte ou da outra, e o que vos fez sentir: «Não foi correto quando mentiste. É errado, além de fazer o outro sentir-se mal.»; «Assustaste-me quando gritaste comigo.»
5. Encontrem soluções
«De futuro, experimenta contar-me a verdade. Terei mais compreensão; quero que sintas que podes falar comigo.»
«Da próxima vez, não grites comigo.»
E reparações…
- Se atirou um prato ao chão e este se partiu, reparará a situação, varrendo os cacos
- Se trouxe da escola um brinquedo de um colega, no dia seguinte vai devolver-lho
Crie regras de família simples e claras
- Não podemos bater
- Devemos ser respeitosos
- Tentamos cumprir os tempos de sono, de alimentação…
- É importante lavar os dentes, etc.
Mas lembre-se:
A melhor educação vem do exemplo. Se queremos que a criança seja empática, praticamos a empatia. Se queremos que seja respeitosa, somos respeitosos.
Vá dando um passo de cada vez, mas com persistência, e verá a sua vida familiar melhorar gradualmente.
